DUTRA, Miguel Archanjo Benício de Assumpção, o Miguelzinho

De IHGP
Ir para: navegação, pesquisa

N. Itu, SP, 15.8.1812. F. Piracicaba, 22.9.1875. C.c. Francisca Rosa de Assis. F.: Miguel Ângelo Bonarroti Dutra (v.) Era filho de Thomaz da Silva Dutra, n. Lorena, SP, 24.3.1775, e Gertrudes Maria Pereira, que se casaram em Itu, SP, a 14.2.1809. Artista plástico dotado de talento polimorfo, foi escultor pintor, ourives, organista, compositor, poeta, literato, fabricante de pianos e órgãos, arquiteto, construtor, museólogo, carpinteiro, marceneiro, entalhador. Tinha 32 anos de idade quando, juntamente com a esposa, passou a residir e trabalhar em Piracicaba, contratado para executar trabalhos de entalhe na igreja matriz, acabando por tornar-se mestre de obra. Foi de fato nomeado pela câmara em 1858 para o cargo de diretor de obras da matriz, por ele planejadas e executadas. A despeito de ser ituano de nascimento, é reconhecido como um dos maiores nomes do passado de Piracicaba, onde viveu a maior parte de sua existência, de tempo em tempo deixando a cidade a fim de atender encomendas em outras cidades, notadamente na construção de matrizes e feitura de imagens, em Limeira, Capivari, Itirapina, Araras, Brotas, Itu, Porto Feliz, Rio Claro, Santos, Itapira. Religioso convicto e caridoso, dedicou longos anos de sua vida à construção da antiga igreja de N. S. da Boa Morte, solenemente inaugurada em 1.9.1855. A igreja foi depois demolida, em virtude de incêndio que aconteceu em prédio vizinho, em 25.1.1891. Diz bem do seu espírito caritativo o que se lê em Velloso (2000): “Acudia sempre os mais necessitados. Era mesmo um caridoso convicto, tudo fazendo para minorar o sofrimento dos mais carentes. Morreu muito pobre, apesar de todo o seu talento, pois quase tudo quanto ganhava com seu trabalho doava aos pobres e à sua querida irmandade da Nossa Senhora da Boa Morte”. Em seu enterro, o dr. Brasílio Machado encerrou sua oração fúnebre com estas palavras: “Descansa, Miguelzinho, descansa pobre, pai da pobreza”. Foi sepultado na Igreja de Boa Morte, na praça que tem seu nome. A história de Piracicaba assinala numerosas contribuições suas. Deve- lhe o projeto e a construção da capela do Passo de São Vicente de Paulo, também conhecido como Passo do Senhor do Horto, abrigando altar, entalhes e imagens, uma das quais é a escultura de roca, vestida com túnica, de Nosso Senhor, imagem que desapareceu, mas foi posteriormente recuperada. O passo encontra-se à rua Prudente de Moraes, vizinho do n° 802. Deixou-nos aquarelas de fazendas locais (Corumbataí, Monte Alegre), imagens de queimada (1847), da festa e da bandeira do Divino, de um “cego com criança” na Piracicaba de 1845, tipos humanos... Sua assinatura está na primeira ata da Irmandade da Santa Casa de Piracicaba (25.12.1854), entre as dos “membros instaladores” da Irmandade, ponto de partida da criação da instituição, figurando igualmente o seu nome entre os dos “25 primeiros irmãos considerados ilustres pelo mérito dos serviços prestados” (Moratori, 2004). Fez parte da comissão de três membros que elaborou e viu aprovada a planta do primeiro hospital da Santa Casa e foi na verdade o autor dessa planta. A fonte aqui mencionada destaca que coube a Miguelzinho a chefia das obras de construção, à rua Direita (atual Moraes Barros, na esquina com a rua José Pinto de Almeida) realizadas de 1865 a 1883. Elegeram-no mordomo do primeiro hospital, na provedoria de José Viegas Muniz (1864-69), sendo designado para a administração das obras de construção. De acordo com M. Cachioni (cit. por B. Elias, 2002), Miguelzinho foi quem projetou e executou a primeira construção do teatro Santo Estêvão, na atual praça José Bonifácio, e em 1867 a da Igreja de São Benedito, concluída após seu falecimento. Redigiu um diário com as principais ocorrências em Piracicaba, de 1869 a 1874. Criou (1840) um pequeno museu local, com cristais, amostra de minerais, obras pictóricas, miniaturas, peças raras de fundição, armas e utensílios de índios, armaduras antigas, peles e ossadas de animais, numismática..., segundo depoimento da época (Bardi, 1981). Foi pioneiro em pintura ao ar livre apoiada em cavalete, no meio provinciano paulista; dedicou-se à medicina caseira e ao estudo da natureza, da astronomia, da astrologia. No manuscrito “Depósito dos Trabalhos de Miguel Archanjo Benício de Assumpção Dultra” (sic), datado de 1847, listou sua produção até então, que incluía abundante produção musical: obras sacras, valsas (1830, 1836, 1847), hino, mazurca, modinha, composições para violino e piano... Pietro M. Bardi definiu Miguelzinho como poliédrico. Setembrino Petri (em Bardi, 1981) destacou-o como “uma das fontes preciosas da documentação iconográfica paulista do século XIX e um dos precursores das artes plásticas no Brasil..., integrado na vida provinciana de São Paulo. Foi, acima de tudo, um homem que viveu seu tempo”. Piracicaba, cultuando-lhe a memória, atribuiu seu nome a uma praça do centro, e assim também à Pinacoteca Municipal, Casa de Artes Plásticas Miguel Archanjo Benício de Assumpção Dutra.



Pfromm Netto, Samuel, 1932-2012. Dicionário de Piracicabanos / Samuel Pfromm Netto. — 1. ed. — São Paulo : PNA, 2013.